A metáfora de Heimlich

Tem horas na vida em que tudo o que precisamos é uma manobra de Heimlich. Passamos a vida engolindo sapos, sendo obrigados a aceitar opiniões de todos os lados e acabamos ficando engasgados porque não temos a oportunidade de dizer tudo o que queremos, mas não devermos, ou o que devemos, mas não queremos.
Talvez por esse motivo eu tenha aprendido a admirar tanto a solitude. Sabe aquela sensação de que não há ninguém para agradar ou prestar contas ou de que não há porque se incomodar com as espinhas que vira e mexe aparecem no rosto, porque o que importa mesmo está na forma como você pensa e não na forma como o mundo te enxerga?
Quando eu era adolescente, passava horas sentada no pátio do colégio ou na arquibancada das quadras apreciando a paisagem em silêncio, aproveitando da minha companhia. Pode ser que naquele momento eu me sentisse um pouco solitária, porém hoje, com o dobro de tempo de vida, percebo que desde aquela época, gostava da companhia dos meus próprios pensamentos.
A verdade é que eu não me encaixo dentro da caixa. E acho que ninguém deveria se encaixar. Mas nossa vida hoje é movida a inbox. Estamos encaixotados o tempo todo, como um produto em uma prateleira de supermercado. Temos que estar sempre disponíveis, sempre online, sempre simpáticos, sempre iguais a todo mundo. "Eu sou a forma da felicidade", diz a primeira caixa. "Eu sou o segredo do sucesso profissional, pessoal e financeiro", diz a segunda. "Eu sou o relacionamento perfeito", diz a terceira.
Mas já repararam que tem gente que prefere sorvete de flocos e outra de chocolate? Que tem gente que prefere perfume forte e outra prefere fragrâncias cítricas? E que tem gente que passa a vida na internet querendo que os outros encontrem uma caixa e quem não faz parte da sua caixinha automaticamente se torna rival?
Tem gente que acha que a vida é feita das coisas postadas na internet. Meu amigo, posso te contar uma coisa ? A vida é orgânica, perecível, analógica. Temos 86.400 segundos diários e existem momentos que desperdiçá-los com opinião alheia de quem viu uma única foto postada há 15 dias é no mínimo preocupante.
 Prefiro montar móveis, regar as plantas, aprender novas dobras de roupas para organizar o armário. Prefiro compartilhar com meus pais novas maneiras de acender a churrasqueira em segurança. Prefiro fazer meu sobrinho rir com meus barulhos engraçados. Prefiro deixar os fios brancos surgirem no cabelo.  Prefiro tomar café sem açúcar. Prefiro deixar o celular no "não perturbe" e ao mesmo tempo tento imaginar como seria bom deixar pessoas nesse modo também.
Seria tão bom se evitássemos dizer para as pessoas o que elas deveriam fazer com suas próprias vidas, se não tivéssemos que prestar contas no whatsapp do porque o celular ficou desligado ou o porque não olhou a mensagem enviada no facebook. Seria tão bom se pudéssemos viver offline sem culpa.
Pronto, desengasguei.

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